{"id":36,"date":"2021-09-16T22:51:51","date_gmt":"2021-09-17T01:51:51","guid":{"rendered":"https:\/\/caminhodasaguas.org.br\/vida\/?page_id=36"},"modified":"2021-09-16T22:55:34","modified_gmt":"2021-09-17T01:55:34","slug":"saude-ambiental-e-anti-hegemonia","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/caminhodasaguas.org.br\/vida\/saude-ambiental-e-anti-hegemonia\/","title":{"rendered":"SA\u00daDE AMBIENTAL E ANTI-HEGEMONIA"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\" align=\"center\">Fonte: <a href=\"https:\/\/urtiga.caminhodasaguas.org.br\/ceac-coletivo-consema.htm#doc01-03\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">URTIGA Online, Janeiro de 2003<\/a><\/p>\n<p align=\"center\"><i><span style=\"font-family: Arial, Times New Roman;\">Texto de Carlos Bocuhy, Conselheiro do Conselho Estadual do Meio Ambiente de S\u00e3o Paulo, distribu\u00eddo no Encontro de Ativistas, t\u00e9cnicos e militantes dos movimentos ambientalistas, da sa\u00fade do trabalhador e da sa\u00fade ambiental do F\u00f3rum Social Mundial: construindo uma sociedade democr\u00e1tica e sustent\u00e1vel<\/span><\/i><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div align=\"left\">\n<p><i> <\/i><span style=\"font-size: small;\"><i><span style=\"color: #330000;\">&#8220;Uma das principais conseq\u00fc\u00eancias do neoliberalismo na realidade mundial tem sido o aumento da exclus\u00e3o e da discrimina\u00e7\u00e3o. As apregoadas virtudes da globaliza\u00e7\u00e3o &#8211; baseadas numa economia sem controle &#8211; configuram-se diante das conseq\u00fc\u00eancias atuais como materialmente falsas. A id\u00e9ia hiper-liberal, colocada hoje como modelo de desenvolvimento, \u00e9 irrespons\u00e1vel e indefens\u00e1vel. Como conseq\u00fc\u00eancia, h\u00e1 uma exclus\u00e3o social de 12 a 15% nos pa\u00edses ricos, 50% nas sociedade emergentes &#8211; como Brasil e M\u00e9xico &#8211; e de aproximadamente 80% em regi\u00f5es como as andinas e africanas. Isto ocorre porque vivemos um per\u00edodo de dessocializa\u00e7\u00e3o e desinstitucionaliza\u00e7\u00e3o &#8211; que se retrata numa des-democratiza\u00e7\u00e3o. O avan\u00e7o da tecnologia dos meios de comunica\u00e7\u00e3o nas \u00faltimas d\u00e9cadas aproximou as multirealidades culturais. \u00c9 preciso fazer uma distin\u00e7\u00e3o clara entre o contexto vigente da l\u00f3gica mercantilista de uma economia globalizada, totalmente distinta dos fatores hist\u00f3ricos que influenciam o fen\u00f4meno da internacionaliza\u00e7\u00e3o. <\/span><\/i><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\"><i><span style=\"color: #330000;\">\u00c9 importante compreendermos os engodos a que temos sido submetidos. N\u00e3o podemos falar simplesmente em globaliza\u00e7\u00e3o, mas sim da linha mestra neoliberal que se difunde internacionalmente: &#8220;quanto menos controle, melhor!&#8221; Esta vis\u00e3o nos permite compreender a ideologia, bem como avaliar as conseq\u00fc\u00eancias do car\u00e1ter selvagem da economia hoje em curso. Assim, nosso problema n\u00e3o \u00e9 essencialmente o de desinternacionalizar, mas sim de democratizar. Democratizar, nos dias de hoje, seria colocar os meios \u00e0 servi\u00e7o dos fins e a economia \u00e9 um meio, e n\u00e3o um fim. As sociedades n\u00e3o s\u00e3o sub-produto de atividades econ\u00f4micas e este processo reducionista neoliberal s\u00f3 faz subverter os valores sociais primordiais.<\/span><\/i><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\"><i><span style=\"color: #330000;\"> Ren\u00e9 Passet, em &#8220;A Ilus\u00e3o Neoliberal&#8221;, questiona a id\u00e9ia de crise permanente, onde a sociedade n\u00e3o busca outras possibilidades de um novo mundo &#8211; que n\u00e3o seja um mero retorno \u00e0 uma pseudo normalidade perdida. Imersos na situa\u00e7\u00e3o de caos, os discursos de gest\u00e3o da crise &#8211; a partir das vis\u00f5es do mercado e do Estado m\u00ednimo &#8211; apresentam a realidade como se fosse apenas uma defasagem passageira em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 normalidade familiar, que naturalmente ser\u00e1 recuperada um dia, como uma disfun\u00e7\u00e3o &#8211; que n\u00e3o diz respeito nem \u00e0 norma do sistema nem a seus mecanismos reguladores. Mas o que ocorre \u00e9 que essa disfun\u00e7\u00e3o permanente tem suas ra\u00edzes num nefasto sistema para o ambiente e a sociedade global.<\/span><\/i><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\"><i><span style=\"color: #330000;\"> Importante ressaltarmos que o ide\u00e1rio hiper-liberal n\u00e3o poderia ser implementado sem uma vigorosa argumenta\u00e7\u00e3o que possibilitasse menor resist\u00eancia social para a desregulamenta\u00e7\u00e3o das institui\u00e7\u00f5es. De outra forma, como poder\u00edamos ter chegado ao absurdo de presenciar a vida e a sa\u00fade postas como mercadoria monetarizada, na depend\u00eancia das for\u00e7as do mercado? A exclus\u00e3o pelo desemprego, ou por subempregos em \u00e1reas insalubres, n\u00e3o podem prescindir de um Estado que atenda as dificuldades e distor\u00e7\u00f5es ambientais e sociais, assim como \u00e9 desumano deixar de agir em prol de desvalidos acometidos pela priva\u00e7\u00e3o aos recursos essenciais \u00e0 vida e \u00e0 sa\u00fade, como boa qualidade do ar, \u00e1gua, alimenta\u00e7\u00e3o, saneamento, moradia, etc.<\/span><\/i><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\"><i><span style=\"color: #330000;\"> Diante da vis\u00e3o desumanizada imposta pelo mercado sem peias, existe hoje a necessidade imperiosa de uma a\u00e7\u00e3o social que busque o equil\u00edbrio nas rela\u00e7\u00f5es humanas. \u00c9 preciso procurar o bem comum. \u00c9 preciso ser diferente pela cultura e igual na participa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica ou no acesso eq\u00fcitativo aos recursos naturais &#8211; e \u00e0 qualidade de vida. <\/span><\/i><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\"><i><span style=\"color: #330000;\"> Outro engodo a que temos sido submetidos \u00e9 a id\u00e9ia de que nada se pode fazer contra a globaliza\u00e7\u00e3o. &#8220;A economia mundializada \u00e9 incontrol\u00e1vel&#8221;. Soci\u00f3logos com Alan Touraine tem questionado essa ideologia e sua rela\u00e7\u00e3o anti-democr\u00e1tica, perguntando: quais s\u00e3o as conseq\u00fc\u00eancias pr\u00e1ticas dessa globaliza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica? Isso \u00e9 bom ou \u00e9 mau? \u00c9 verdadeiro ou falso? <\/span><\/i><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\"><i><span style=\"color: #330000;\"> Numa an\u00e1lise preliminar n\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil perceber que o problema \u00e9 a aus\u00eancia de crit\u00e9rios sociais nessa massifica\u00e7\u00e3o imposta pela internacionaliza\u00e7\u00e3o, que a priori deveria ser um avan\u00e7o social de dimens\u00f5es planet\u00e1rias. Se fal\u00e1ssemos de democracia \u00e0 dois s\u00e9culos, estar\u00edamos falando de entregar o poder ao povo. H\u00e1 um s\u00e9culo, de estabelecer com clareza as rela\u00e7\u00f5es de trabalho na sociedade. Hoje, temos que falar da democratiza\u00e7\u00e3o internacionalizada. Essencial nesse processo de democratiza\u00e7\u00e3o planet\u00e1ria seria considerar o acesso eq\u00fcitativo aos recursos naturais e \u00e0 qualidade ambiental. Mas no ide\u00e1rio neoliberal a competitividade justifica o lucro e o enxugamento dota empresas e Estados de uma economia &#8220;saud\u00e1vel&#8221;. Essa &#8220;salubridade econ\u00f4mica&#8221; tem se revelado oportunista, al\u00e9m de constituir um fraco argumento para a maximiza\u00e7\u00e3o do lucro. Enquanto isso, a conta repassada vai do interesse particular para o conjunto da sociedade, gerando desemprego e caos social. Estamos frente a um sistema de produ\u00e7\u00e3o que agrega menor valor social, atendendo apenas \u00e0 &#8220;saud\u00e1vel&#8221; concentra\u00e7\u00e3o de capital. A figura do mercado sobrep\u00f5e-se \u00e0 do Estado e o interesse p\u00fablico \u00e9 sufocado pela l\u00f3gica especulativa &#8211; que se justifica como competi\u00e7\u00e3o, virtude mercadol\u00f3gica tamb\u00e9m apregoada como &#8220;saud\u00e1vel&#8221;. A tutela de todo o processo fica por conta da auto-regulamenta\u00e7\u00e3o do mercado.<\/span><\/i><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\"><i><span style=\"color: #330000;\"> A principal fun\u00e7\u00e3o do Estado e da governan\u00e7a em seus diversos n\u00edveis &#8211; como elemento regulador das press\u00f5es &#8211; deveria ser a de imprimir regras claras ao jogo entre atores sociais, evitando que o forte prevale\u00e7a sobre o fraco, ou que o interesse privado venha a prevalecer sobre o melhor interesse p\u00fablico.<\/span><\/i><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\"><i><span style=\"color: #330000;\"> A desregulamenta\u00e7\u00e3o do estado e sua minimiza\u00e7\u00e3o transformaram sua fun\u00e7\u00e3o de elemento regulador em tibieza institucional. Sob a \u00e9gide da n\u00e3o interven\u00e7\u00e3o e em nome de uma pseudo-democracia, o mundo enveredou na cura dos males do Estado do Bem-estar, com um rem\u00e9dio amargo que hoje mata o doente. As conseq\u00fc\u00eancias s\u00e3o o desemprego, a insalubridade e a degrada\u00e7\u00e3o de valores ambientais e sociais. A participa\u00e7\u00e3o social na gest\u00e3o p\u00fablica reduziu-se ao testemunho silencioso ou aos protestos ineficazes diante da dilapida\u00e7\u00e3o das institui\u00e7\u00f5es e da fal\u00eancia do planejamento e da gest\u00e3o que atingiu os setores mais estrat\u00e9gicos das na\u00e7\u00f5es &#8211; caracterizando mais uma desconstru\u00e7\u00e3o: a desnacionaliza\u00e7\u00e3o <\/span><\/i><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\"><i><span style=\"color: #330000;\"> Ren\u00e9 Passet tem trazido algumas considera\u00e7\u00f5es sobre a passagem hist\u00f3rica dos impactos das atividades humanas para a dimens\u00e3o global. No contexto geogr\u00e1fico, a amplitude da crise ambiental torna-a muito mais grave. H\u00e1 dez mil anos, saindo do neol\u00edtico, nossos ancestrais come\u00e7avam a se sedentarizar. Delimitavam terrenos para se fixar e inauguraram uma fase humana baseada na domestica\u00e7\u00e3o de energias. Com o potencial de atividades humanas ampliado pela tecnologia &#8211; e o crescimento populacional &#8211; a atividade antr\u00f3pica exacerbou-se. Em determinadas \u00e1reas rompeu-se o que podemos definir como capacidade de suporte ambiental, tendo em vista a perspectiva futura de sobreviv\u00eancia de comunidades nessas \u00e1reas. O ec\u00f3logo Eugene Odum tem iluminado os conceitos sobre limita\u00e7\u00e3o de recursos naturais e as concentra\u00e7\u00f5es humanas. S\u00e3o fatores que no \u00e2mbito global demoram a ser percebidos &#8211; mesmo porque as reservas no geral pareciam imensas &#8211; mas os estoques existem em quantidade finita e n\u00e3o se renovam, ou s\u00e3o degradados e explorados acima de sua capacidade de renova\u00e7\u00e3o.<\/span><\/i><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\"><i><span style=\"color: #330000;\"> Principalmente a partir dos anos 80, ficaram mais claras as dimens\u00f5es globais do meio natural e os impactos causados pelas atividades humanas: o efeito estufa, o buraco na camada de oz\u00f4nio, a redu\u00e7\u00e3o da biodiversidade. A id\u00e9ia de meio ambiente j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais suficiente: fala-se de biosfera, ou seja, n\u00e3o mais de uma soma de fen\u00f4menos espec\u00edficos, mas de um sistema de interdepend\u00eancias, ao mesmo tempo coerente, complexo, auto-regulado e &#8211; sob certos limites aos quais deve o homem estar atento &#8211; auto regenerador.<\/span><\/i><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\"><i><span style=\"color: #330000;\"> A passagem para o plano global n\u00e3o permite continuar falando em disfun\u00e7\u00e3o ou crise: duas l\u00f3gicas defrontam-se: a do desenvolvimento econ\u00f4mico e das regula\u00e7\u00f5es naturais, amea\u00e7ando a primeira de destruir a segunda e com isso arruinar a sustenta\u00e7\u00e3o de toda a vida humana.<\/span><\/i><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\"><i><span style=\"color: #330000;\"> Como as dimens\u00f5es da economia s\u00e3o globais e a aus\u00eancia de regras mais claras na sua regula\u00e7\u00e3o tem sido a causa da exist\u00eancia de fen\u00f4menos ambientais de magnitude planet\u00e1ria, temos que cada vez mais pensar e agir local e globalmente. Assim, uma nova Am\u00e9rica Latina e um novo Brasil s\u00e3o poss\u00edveis, mas apenas dentro de um Novo Mundo. Democr\u00e1tica, plural e socialmente justa, essa nova realidade seria incompat\u00edvel com a falta de controle nos padr\u00f5es de emiss\u00f5es atmosf\u00e9ricas, os ataques \u00e0 biodiversidade, o desmantelamento dos servi\u00e7os p\u00fablicos sanit\u00e1rios, a desregulamenta\u00e7\u00e3o ambiental e a mercantiliza\u00e7\u00e3o da sa\u00fade e da vida.<\/span><\/i><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\"><i><span style=\"color: #330000;\"> Para fazer frente a esses desafios, imp\u00f5e-se um equil\u00edbrio que permita &#8211; como se vem afirmando &#8211; o desenvolvimento sustent\u00e1vel &#8211; um termo amplamente utilizado pelo mercado e j\u00e1 desgastado por usos indevidos, at\u00e9 mesmo para justificar desenvolvimentismo econ\u00f4mico. \u00c9 preciso retomar a concep\u00e7\u00e3o inicial da sustentabilidade das sociedades, estabelecendo o que deveria ser a melhor express\u00e3o de uma pioneira solidariedade intergeracional. O termo j\u00e1 se tornou jocoso, em fun\u00e7\u00e3o de sua banaliza\u00e7\u00e3o pela vulgariza\u00e7\u00e3o do uso, que mais se aproxima do desenvolvimento consert\u00e1vel &#8211; ou inconsert\u00e1vel.<\/span><\/i><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\"><i><span style=\"color: #330000;\"> Nas rela\u00e7\u00f5es sociais, para o estabelecimento do papel do Estado e da governan\u00e7a, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel aceitar a id\u00e9ia da auto-regulamenta\u00e7\u00e3o do mercado. Em in\u00fameras situa\u00e7\u00f5es, s\u00f3 a normatiza\u00e7\u00e3o e as a\u00e7\u00f5es jur\u00eddicas &#8211; junto com a penaliza\u00e7\u00e3o &#8211; tem sido suficientes para regulamentar a sanha e o lucro f\u00e1cil da selvageria do mercado. A estrat\u00e9gia mambembe das transnacionais, que migram nos ventos da desregulamenta\u00e7\u00e3o &#8211; conforme as facilidades na produ\u00e7\u00e3o e a altos custos sociais e ambientais &#8211; demonstram claramente a aus\u00eancia e a necessidade de maior controle social e regulamenta\u00e7\u00f5es trabalhistas e ambientais internacionais. Essa constata\u00e7\u00e3o traz novamente para a discuss\u00e3o o papel regulador do Estado, em especial para a sa\u00fade p\u00fablica. Em sua obra &#8220;No Logo&#8221;, Naomi Klein demonstra o que denomina &#8220;a tirania das marcas em um planeta vendido&#8221;, retratando um &#8220;Marcado Mundo Novo&#8221;, cuja produ\u00e7\u00e3o das grifes \u00e9 terceirizada para os pa\u00edses onde o custo ambiental e social \u00e9 maior, demonstrando um mercado global que aposta na desregulamenta\u00e7\u00e3o local como fator priorit\u00e1rio de maximiza\u00e7\u00e3o do lucro. <\/span><\/i><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\"><i><span style=\"color: #330000;\">\u00c9 preciso colocar as atividades humanas no patamar coletivo. Em que plataforma geogr\u00e1fica situa-se a coletividade humana? Cada vez mais em \u00e1reas cinzentas espalhadas pelo planeta, imersas em polui\u00e7\u00e3o atmosf\u00e9rica, h\u00eddrica ou sobre grandes extens\u00f5es de solo contaminado, onde grassa a desregulamenta\u00e7\u00e3o que apenas alimenta subempregos. Aplica-se o que Paulo Freire chamava falsa generosidade, abusando-se da miserabilidade das popula\u00e7\u00f5es. O potencial das atividades antr\u00f3picas \u00e9 descontrolado, desregulamentado e ca\u00f3tico, atingindo propor\u00e7\u00f5es das devasta\u00e7\u00f5es de uma guerra. Quando observamos \u00e1reas degradadas por uso industrial e f\u00e1bricas de pesticidas, podemos vislumbrar a amea\u00e7a silenciosa de contamina\u00e7\u00e3o que continua a pairar sobre as comunidades vizinhas. Observando Bhopal, Chernobyl e outros locais que foram palco de acidentes qu\u00edmicos e radioativos &#8211; presenciamos meras cat\u00e1strofes anunciadas. Os problemas enfrentados pelos trabalhadores \u00e0 muito extrapolou muros de empresas, atingindo comunidades inteiras. \u00c9 preciso romper o pacto de sil\u00eancio entre poluidores e governos, para tornarmos a casa saud\u00e1vel, principalmente no aspecto preventivo. H\u00e1 um pre\u00e7o a ser pago pelo desenvolvimentismo econ\u00f4mico e a conta aumenta com o c\u00f4mputo de vidas humanas, inalien\u00e1veis e incomput\u00e1veis na forma financeira &#8211; tal a proximidade com a g\u00eanese da pr\u00f3pria economia, ora aviltada e subvertida at\u00e9 ao ponto de aniquilar a finalidade de sua exist\u00eancia.<\/span><\/i><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\"><i><span style=\"color: #330000;\"> No Brasil, o Estado de S\u00e3o Paulo tem sido palco constante de epis\u00f3dios de contamina\u00e7\u00e3o, onde espa\u00e7os sociais est\u00e3o cada vez mais cobertos por polui\u00e7\u00e3o ou sujeitos a riscos iminentes. H\u00e1 o exemplo pungente da morte social de rios, cujas \u00e1guas n\u00e3o se prestam mais para nenhuma finalidade humana. E qual seriam as poss\u00edveis respostas, a\u00e7\u00f5es e pol\u00edticas para resolver a satura\u00e7\u00e3o de \u00e1reas com sua capacidade de suporte comprometida em grandes metr\u00f3poles como S\u00e3o Paulo? Pode a auto-regulamenta\u00e7\u00e3o do mercado responder este desafio? Qual o futuro dessas grandes \u00e1reas, habitadas por milh\u00f5es de pessoas? A perspectiva \u00e9 das mais sombrias, diante do n\u00e3o-planejamento e da desregulamenta\u00e7\u00e3o promovida pelo lucro imediato e concentrado, que n\u00e3o agrega nenhuma riqueza social.<\/span><\/i><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\"><i><span style=\"color: #330000;\"> Vivemos a ant\u00edtese da vida, a era do n\u00e3o. O avan\u00e7o hegem\u00f4nico da n\u00e3o-democracia, da n\u00e3o-regula\u00e7\u00e3o e do n\u00e3o-planejamento. Mergulhados no progressivo caos social, assistindo o crescimento das propor\u00e7\u00f5es e magnitudes dos impactos e da degrada\u00e7\u00e3o. Perguntamo-nos: como chegamos ao ponto de admitir que suprimindo todo o controle sobre a economia haveria uma melhora da situa\u00e7\u00e3o? Ren\u00e9 Passet lembra argumentos para essa fal\u00e1cia, retratada no c\u00e9lebre teorema de Schmidt, o ex-chanceler alem\u00e3o, que &#8220;os lucros de hoje s\u00e3o os investimentos de amanh\u00e3, que promover\u00e3o o pleno emprego de depois de amanh\u00e3&#8221;. Assim, equilibrar o or\u00e7amento do Estado ou explorar seu d\u00e9ficit para estimular os gastos geradores de empregos s\u00e3o debates bem conhecidos e at\u00e9 tranquilizadores. Mas se a teoria proposta n\u00e3o produz resultados &#8211; aqui vem as vantagens da altern\u00e2ncia pol\u00edtica &#8211; basta acusar os sobreviventes do sistema oposto! Se n\u00e3o houve \u00eaxito, \u00e9 porque houve liberalismo demais, a menos que seja por excesso de intervencionismo&#8230; e assim caminha o mundinho da economia&#8230; e da pol\u00edtica!<\/span><\/i><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\"><i><span style=\"color: #330000;\"> Pierre Boudieu cita Maurice Allais, liberal contempor\u00e2neo e pr\u00eamio Nobel franc\u00eas, que ruge: &#8220;Baderna &#8211; a livre degrada\u00e7\u00e3o da cupidez em nome das virtudes do lucro, a libera\u00e7\u00e3o da for\u00e7a bruta em nome da iniciativa individual, esse pseudo-liberalismo n\u00e3o passa da capa da responsabilidade de uma tentativa de fazer desaparecer os \u00faltimos obst\u00e1culos ainda enfrentados por uma empreitada hegem\u00f4nica. Desarmando o fraco e n\u00e3o os poderosos &#8211; cuja for\u00e7a amea\u00e7a, ela sim, os fundamentos da regula\u00e7\u00e3o mercante&#8221;. <\/span><\/i><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\"><i><span style=\"color: #330000;\"> Na verdade assistimos a um confronto. Com a raposa solta no galinheiro, alguns sugerem que se reforce o galinheiro e se vigie a raposa, enquanto a pr\u00f3pria raposa pleiteia sua livre circula\u00e7\u00e3o. Enquanto isso, os ovos somem e as galinhas morrem.<\/span><\/i><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\"><i><span style=\"color: #330000;\"> Numa an\u00e1lise sobre a necessidade de um movimento social europeu, Pierre Boudieu afirma que novas propostas s\u00f3 existem em estado virtual de pensamentos privados ou isolados ou em publica\u00e7\u00f5es marginais, relat\u00f3rios confidenciais ou revistas de circula\u00e7\u00e3o restrita. \u00c9 muito pouco para fazer frente ao atual estado de desmantelamento dos Estados e das institui\u00e7\u00f5es, e a principal prioridade dos dias de hoje deve ser, sem d\u00favida, uma articula\u00e7\u00e3o anti-hegem\u00f4nica, contra uma hegemonia neoliberal que conseguiu &#8211; incompreensivelmente do ponto de vista social &#8211; enormes dimens\u00f5es. <\/span><\/i><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\"><i><span style=\"color: #330000;\"> O F\u00f3rum Social Mundial pode ser essa agrega\u00e7\u00e3o de for\u00e7as, onde um mundo novo \u00e9 poss\u00edvel, com a desmistifica\u00e7\u00e3o do ide\u00e1rio neoliberal, da pr\u00e1tica predat\u00f3ria que atenta contra a intelig\u00eancia humana com premissas ca\u00f3ticas de n\u00e3o-governan\u00e7a, onde o mercado representa apenas a express\u00e3o contempor\u00e2nea da barb\u00e1rie armada da tecnologia. <\/span><\/i><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\"><i><span style=\"color: #330000;\"> O eixo da economia, sem regula\u00e7\u00e3o social, inclinou-se perigosamente em sua base e seu peso afeta as condi\u00e7\u00f5es vitais do globo. \u00c9 preciso manter a cr\u00edtica e a den\u00fancia desse sistema econ\u00f4mico dessocializado, despolitizado, des-democratizado. \u00c9 preciso implementar o tipo de sociedade que corresponda \u00e0 verdade e \u00e0 justi\u00e7a&#8221;.<\/span><\/i><\/span> <span style=\"color: #330000; font-family: Arial, Times New Roman; font-size: small;\">. <\/span><\/p>\n<\/div>\n<p align=\"left\"><span style=\"color: #330000; font-family: Arial, Times New Roman; font-size: small;\"> <i>Carlos Bocuhy &#8211; <span style=\"font-family: Arial, Times New Roman;\">Conselheiro do Conselho Estadual do Meio Ambiente de S\u00e3o Paulo<\/span> <\/i><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fonte: URTIGA Online, Janeiro de 2003 Texto de Carlos Bocuhy, Conselheiro do Conselho Estadual do Meio Ambiente de S\u00e3o Paulo, distribu\u00eddo no Encontro de Ativistas, t\u00e9cnicos e militantes dos movimentos ambientalistas, da sa\u00fade do trabalhador e da sa\u00fade ambiental do F\u00f3rum Social Mundial: construindo uma sociedade democr\u00e1tica e sustent\u00e1vel &nbsp; &#8220;Uma das principais conseq\u00fc\u00eancias do&#46;&#46;&#46;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":38,"parent":0,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","meta":{"footnotes":""},"class_list":["post-36","page","type-page","status-publish","has-post-thumbnail","hentry"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.0 - 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